Fernando Pessoa - Heterônimos.


Três Sonetos

I

[A Raul de Campos]

Quando olho para mim não me percebo.

Tenho tanto a mania de sentir

Que me extravio às vezes ao sair

Das próprias sensações que eu recebo.

O ar que respiro, este licor que bebo

Pertencem ao meu modo de existir,

E eu nunca sei como hei de concluir

As sensações que a meu pesar concebo.

Nem nunca, propriamente, reparei

Se na verdade sinto o que sinto. Eu

Serei tal qual pareço em mim? Serei

Tal qual me julgo verdadeiramente?

Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,

Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Lisboa (uns seis a sete meses antes do Opiário), agosto, 1913.


(Álvaro de Campos - Três Sonetos)





Não sei o que é conhecer-me. Não vejo pra dentro.

Não acredito que eu exista por detrás de mim.


(Alberto Caeiro – Poemas Inconjuntos, 1913-1915)





149

Vivem em nós inúmeros;

Se penso ou sinto, ignoro

Quem é que pensa ou sente.

Sou somente o lugar

Onde se sente ou pensa.

Tenho mais almas que uma.

Há mais eus do que eu mesmo.

Existo todavia

Indiferente a todos.

Faço-os calar: eu falo.

Os impulsos cruzados

Do que sinto ou não sinto

Disputam em quem sou.

Ignoro-os. Nada ditam

A quem me sei: eu screvo.

13-11-1935


(Ricardo Reis – Odes e Outros Poemas)


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