Um conto de Natal...

Era uma criança abandonada e triste, que sofria muito por ser só.
Acordava todas as manhãs sob a velha árvore e olhava os raios de sol, os primeiros do dia.
Com eles desejava que tudo fosse diferente.
Mas não era.
Não sabia como comprar pão, pois dinheiro não tinha, não sabia onde tomar banho, pois não tinha casa, e o que mais lhe doía, não podia ir à escola.
Ela via as crianças passar todos os dia, mas não podia ir... Não sabia ler nem escrever... Ela sabia que se fosse para a escola iria aprender, mas não tinha um lápis, nem caderno e nem uma mochila...
Todo dia era a mesma luta, conseguir algo para vender, para daí conseguir algum dinheiro, ou até quem sabe, sair a pedi.
Não gostava muito de pedir, não por que tivesse vergonha, mas as pessoas não davam, não paravam pra lhe dá uma moeda, muitas vezes nem a viam.
Ela não entendia porque não a enxergavam mesmo quando balançava os braços, devia ser por que criança que mora na rua fica sem cor, sem vida...
A fonte da praça quebrou, a água ficou parada por muito tempo e a sujeira tomou conta. Já não podia tomar banho. Não existia rio próximo...
Mas tinha o banheiro no posto de gasolina... Mas tinha uma velha na porta, ela cobrava para entrar, e nem todo dia ela podia pagar.
O jeito era ficar suja mesmo. Mas suja ela fedia, ficava feia e nem parecia gente. Mais um motivo para que não a enxergassem.
Assim as pessoas não chegavam perto, não davam dinheiro, ela não podia comprar pão e ficava com fome.
O dia todo, quase todos os dia.
A sorte era que as pessoas que muito tem, muitas vezes não sabem dar valor a isso, e jogam muita coisa fora, e ela podia se alimentar dos restos.
Muitas vezes ela tinha que dividir com os cachorros que fuçavam os sacos até rasgar.
Mas ela não ligava em dividir, pois sabia o que era ter fome, ela dividia seu pedaço de pão com o cachorrinho... Ele ficava feliz e ela arranjava um parceiro para umas estripulias próprias de criança... Mesmo por algum tempo, quando este saia para procurar outro saco para farejar e rasgar...
Às vezes os alimentos estavam estragados, a faziam-na ficar muito mal.
Como daquela vez que ela vomitou muito, vomitou até sangue...
Sorte que passava um senhor, já devia ter seus oitenta anos... Este lhe comprou um remédio na farmácia e ela tomou. Ficou boa, mas o remédio tinha gosto ruim...
Mas, quer saber, era melhor o gosto de remédio do que do vômito e de estar doente...
O que ela não entendia, é que ela estava muito mal, quase desmaiou na frente do Pet Shop, mas ninguém viu...
Era melhor cuidar de cachorro e gato que do bicho homem... Até rato ela viu entrar... Mas pro bicho homem ninguém ligava...
Mas ela sabia que tinha algumas pessoas de coração bom.
Aí ela se lembrava do velhinho que lhe comprou remédio, da moça bonita e perfumada que lhe comprara um pedaço de bolo de chocolate.
Ela lembra que foi o dia mais feliz de sua vida. Era quase Natal, e ela estava na confeitaria e via a balconista decorar os biscoitos...
A moça bonita e perfumada estava lá, tomando chá, parecia não ter pressa. Parecia que a vida ia bem, mas olhava longe...
E ela lá, vendo a moça decorar os biscoitos... Do lado de fora, claro!
Foi quando suas pernas de criança ficaram cansadas e seu coração machucado e pesado, pois sabia que não ia ter dinheiro pra comprar os lindos biscoitos, que além de tudo pareciam muito gostosos.
E não tinha nenhum adulto para lhe dá...
Ela sentou na calçada e ficou olhando as estrelas no céu, e imaginou o Papai Noel passando com seu trenó...
Embalada com seus sonhos de criança não viu a moça bonita e perfumada sair...
Esta viu a pobre menina sentada na calçada e perguntou se não queria ir num brinquedo, do parque próximo.
Ela deu um largo sorriso, mas balançou a cabeça negativamente.
- Eu tô com fome tia... E já não pôde completar...
Seus olhos cheios de lágrimas, a voz embargada transbordava toda angustia que ia ao seu coração.
Mais do que o estômago doendo, ela tinha a alma ferida.
A moça entendeu tudo, e entrou na confeitaria e comprou um grande pedaço de bolo de chocolate e um lindo biscoito. Uma mocinha com um vestido rosa, sabor morango.
Ela mal podia acreditar.
Era a primeira vez que ia comer bolo de chocolate e ainda um biscoito decorado...
Ela não se conteve e deu um abraço forte, o mais forte que pôde dar.
E começou a comer rapidamente seu bolo... Como estava bom... Era seu bolo favorito... Bolo de chocolate... Ela sempre soube, mesmo sendo a primeira vez que o comia...
Mas de repente parou, ficou olhando pro prato e começou a comer devagar, depois mal colocava algo na boca.
A moça bonita e perfumada percebeu e perguntou o que tinha acontecido. Se ela de repente não estava mais gostando de seu bolo.
Ela disse que sim, que era o seu bolo favorito, mas... Mas... Como ela podia dizer isso...
Ela tinha que deixar pra amanhã, porque não sabia se ia ter o que comer.
Agora era a moça que tinha lágrimas nos olhos.
A bela moça perguntou se o que ela mais queria era ter o que comer todos os dias...
A pequena disse que não. O que ela mais queria era ter uma mãe, por que, às vezes ela ficava muito triste e não tinha ninguém pra cuidar dela e colocar remédio.
Igual naquele dia, que ela caiu e machucou o joelho. Doeu muito e não tinha ninguém pra colocar remédio.
Ela viu que um menino também tinha caído no parque naquela tarde, mas a mãe dele estava lá, não só colocou remédio, mas segurou a mão dele e deu um beijo na testa.
Ela achava engraçado beijo na testa. Mas não tinha quem desse...
A moça bonita e perfumada não conteve o pranto e chorou... Chorou a sua dor e a dor daquela pequena que estava na sua frente.
Entre um soluço e outro sentiu uma mãozinha segurando a sua. Quando levantou a sua face para olhá-la, sentiu um beijinho na sua testa...
Agora era a sua vez de dar um abraço, o mais apertado que pôde dar.
Depois de algum tempo, ela olhou para a pequena e respirou fundo, parece que precisando de um pouco mais de tempo para tomar coragem.
Quando enfim parece que já havia adquirido o suficiente, foi que fez a pergunta:
- Você quer que eu seja a sua mãe?
A menina sorriu e disse sim...
- Este foi meu desejo de Natal... Eu pedi para Papai Noel uma mamãe só pra mim...
A moça bonita, agora mais bonita disse:
- E eu pedi uma filha!
Ela nem sabia por que se lembrou desta história, já fazia tanto tempo...
Deve ser porque estava assando biscoitos para o Natal, e isso a fazia recordar daquela época de criança.
A bela moça bonita e perfumada, agora sua mãe querida e adorada já estava bem velhinha, e às vezes, a memória falhava... Aí de quando em vez ela perguntava o nome da jovem bonita e perfumada que morava com ela naquele lar feliz e que sempre estava lhe dando um beijinho na testa e segurava sua mão... Esta sempre respondia:
- Pode me chamar de Felicidade.
Ela sempre esquecia... Mas a pequena não...

que lindo... =))))
ResponderExcluirxero